domingo, 12 de maio de 2013

Gigante pela própria natureza



Andei fazendo as contas do que o meu país me tirou e do que o meu país me deu. Simplesmente não é justo.
Já cedo, o Brasil tirou a minha mãe. Isso eu vim entender muito depois, mas sim... o Brasil tirou de mim uma das pessoas que com certeza eu mais teria amado na minha vida, se tivesse tido tempo pra isso. Num país de verdade, não existe dengue. Isso eu só entendi muito tempo depois.
Depois, o Brasil aos poucos tirou de mim a diferença. Em que sentido? É que simplesmente ficou normal ver a miséria e, simplesmente, ser indiferente. Afinal, aqui a miséria se esconde em cada virada de esquina, em cada viaduto, em cada entrada de metrô... E a educação simplesmente não é levada a sério. Num país de verdade, não se desenvolvem políticas de miséria e nem se gasta com educação. Um país de verdade entende que educação nunca é um gasto, mas sim o maior investimento em uma nação, uma arma pra acabar com a tal miséria e talvez até quem sabe, com essa minha indiferença. É só que, depois de um tempo, você passa a agradecer o conforto e as coisas que tem e esquece de quem não tem nada.
Depois o Brasil acabou com meus sonhos. Eu sempre achei que seria músico. Só que depois de um tempo, vendo tudo errado, você endurece e sem perceber não consegue mais escrever músicas falando das coisas que você sempre prezou: força, honestidade, humildade, respeito. No Brasil isso tudo é muito raro. E todos fingem apenas não ver.
Fui fazer medicina, afinal, é uma das poucas coisas no Brasil em que se ganha menos mal. Penso que talvez a Medicina seja uma forma de praticar o que eu gostava de escrever (força, honestidade, humildade, respeito), já que escrever, como disse, já não pertence mais a mim.
Até isso o meu país quis me tirar, a medicina. Como? deixando a educação nas mãos das piores pessoas que um país pode produzir. Pessoas que não ligam em acabar com uma universidade e junto com isso, com o futuro de 20 mil pessoas por um único motivo: dinheiro, muito dinheiro. No Brasil, a mercadoria chamada educação, é cedida a quem paga mais.
A conta simplesmente não bate. Até porque, o que eu ganhei, eu não queria ganhar. E mesmo assim me pego tendo esperança. Juro que as vezes tenho raiva dessa esperança. Até que me consolo pensando que eu não gosto do Brasil e do que ele representa. Não, eu não tenho porque gostar. Mas o povo brasileiro, esse sim merece respeito. Se o povo é burro é porque não estudou, se tem fome é porque não estudou, se não tem trabalho é porque não estudou e se não estudou não foi por que não quis. Quase sempre não. Educação aqui é uma mera formalidade. Um "mero direito constitucional". E constituição aqui é "balela".
Apesar disso tudo, pessoas saem pra trabalhar as 4 da manhã, pegam um trem lotado, voltam tarde da noite em um trem mais lotado ainda, pra ganhar um salário. E conseguem manter uma família assim. As vezes formam filhos assim. Essas pessoas sim merecem admiração. Até por que, aqui ninguém é filho de nenhuma pátria mãe gentil, mas ainda assim... um filho do Brasil nunca foge à luta.


Por Rodrigo Rocha Mion